Projecto «Uma fotografia no Deserto»
O dia amanhece e um insistente raio de sol bate-te nos olhos, faz-te pronunciar um longo e espreguiçado hummmm, enquanto te viras e escondes o rosto debaixo do braço e te enroscas nos lençóis em desalinho. Eu olho-te, afago-te o cabelo e toda a verdade do mundo fica contida nesse instante. No momento em que os meus dedos acariciam os fios do teu cabelo iluminado pelo sol, em que o meu olhar sorri a cada poro da tua pele, a cada odor do teu corpo.
Tínhamos acabado de chegar de Marraquesh e no chão amontoavam-se os despojos da viagem: os mapas mal dobrados nos sacos de viagem caqui, a máquina fotográfica pousada na mesinha de cabeceira, a Nomad ainda suja de areia, e o motivo da viagem: uma fotografia no deserto, uma linha, areia e azul refulgente, uma escalada no Kilimanjaro.
A ideia do deserto era já antiga mas impunha-se a cada longa conversa de chá verde aromatizado com hortelã no n.º 457 da Miguel Bombarda, «o mais mítico local para um chá no Porto», dizia eu. «Imagina a cor, a temperatura, o despojamento. Imagina o corpo reduzido à sua condição primária, exposto ao mais absoluto despojamento material e paisagístico. O silêncio violento das cores: a altivez do céu azul e o dourado da areia, o vermelho do pôr-do-sol. Quando penso no deserto penso sempre em cor. E depois penso no despojamento. E na palavra que sempre me fez zangar na infância: o vazio. Lembras-te de eu te contar que costumava achar que a palavra vazio não era uma boa palavra porque era impossível de conceptualizar? Eu tentava imaginar o nada e não conseguia, e passava horas a tentar imaginar o nada». E tu abanavas a cabeça em concordância e olhavas-me com um misto de ternura e divertimento enquanto eu prolongava a tessitura das minhas memórias.
Remexes-te novamente na cama e protestas com o sol, mas deixo de imediato de estar naquele quarto branco de decoração minimalista, na casa pensada ao estilo Alvar Aalto para lá dos montes onde regressamos sempre que nas nossas vidas é outono, e deixo-me invadir pelo ritmo frenético de Djemaa El Fna. Como sempre deixo-me fascinar pela arquitectura, pelos rostos das pessoas. Procuro adivinhar as suas histórias, os episódios das suas vidas. Demoro-me a fotografar uma pequena rapariga. Aparenta ter doze anos, mas pode ter nove, dez. É uma pequena mulher na forma como carrega o alambique e olha à sua volta com a maturidade de quem contribui para a economia da casa com o bem mais precioso. Muito em breve estará prometida em casamento e, de acordo com os ditames sagrados, esposa subserviente e resguardada pelo véu que a deixa vislumbrar o mundo, mas não deixa que a adivinhem nem a ela, nem ao seu corpo. Diz às crentes que baixem os olhos e observem a continência, que não mostrem os seus ornamentos/ que cubram o peito com seus véus/ para que não chamem à atenção sobre seus ornamentos ocultos/ E isso será mais puro para os vossos corações e para os delas. Longe, muito longe do mundo ocidental que vê no véu o aprisionamento da mulher, eu encontrava nestes versículos algo de poético que revelava mais sobre a liberdade da mulher no erotismo do seu corpo pelo resguardo da sua sensualidade. A fotografia resulta em tons sépia, de onde mal sobressaem o acobreado do recipiente, o rosa e o amarelo, aqui e ali na saia e no lenço da cabeça, e de onde se destacam as singelas roupas negras num fundo de areia. Vou caminhando ao sabor da fotografia, e, como o velho Wang-Fô, interessa-me mais a imagem das coisas do que as próprias coisas, e todos os objectos e seres me retêm em inúmeras fotografias: encantadores de serpentes em sibilino assobio, homens sentados em tapetes a recitar monocórdicos versículos do Alcorão, dentistas a exibirem os dentes extraídos de incautas bocas como prova da sua mestria. Recordo o momento em que me perdi nas ruelas da Medina conduzida pelos aromas das especiarias e pelas cores. Os tecidos de seda esvoaçavam em mil tonalidades inebriantes e com eles a minha imaginação que se deixava enlevar na imagem de Sheherazade, diáfana e sensual, a contar as mil histórias das mil e uma noites. Percorria em perfeita insensatez as ruas labirínticas, e fotografei a kasbah e os sougs enquanto a luz o permitiu, sem ter a mais pequena ideia de como regressar ao hotel, onde era suposto eu estar ao fim da tarde para te receber no regresso da escalada. Ter ignorado a recomendação de que nunca saísse sem um guia fazia-me sentir agora mergulhada num desconfortável fluxo de comerciantes histéricos à procura de fregueses, de gente apressada a conduzir burros fétidos com o lombo carregado de mercadorias, num tempo indefinido que parecia ter perdido todo o encanto de há momentos atrás. Com a desorientação e a vulnerabilidade estampadas no rosto percorri vezes sem conta as mesmas ruas, os mesmos lugares, e aqueles dois homens de aspecto sórdido, certamente fregueses dos dentistas da Medina, pareciam desdobrar-se em mil e aparecer-me a cada esquina. Entre os dentes em falta, havia um deles a quem faltava um dedo também. Ao sentir as suas vocalizações guturais cada vez mais perto, estuguei o passo e a máxima da justiça islâmica «olho por olho, dente por dente» fazia-me segurar a Canon com todas as forças. A noite cobria as ruas com o seu manto de escuridão e mal pude vislumbrar o comerciante que puxava um carro de madeira apinhado de mercadorias com quem embati violentamente. Sei que caí e que uma dor aguda na cabeça me fez cambalear momentaneamente, que um fio de sangue me rolou pela testa, e só tive tempo de ver se a máquina fotográfica permanecia intacta e continuei em precipitada fuga por ruelas escuras agora desertas. Já sem fôlego e coberta de pó, deixei-me cair na entrada de uma casa desabitada. Nos recantos escuros das paredes vazias pareciam projectar-se sombras fantasmagóricas. Agonizei, sentada no chão, abraçada aos joelhos, como uma pobre menina que tem regressar a casa sozinha e não sabe como. Passou toda uma eternidade até que ouvisse familiares vozes em francês e o «estou aqui» tolhido na garganta pela emoção na noite escura se fizesse ouvir. Valorizei como nunca essa tua fleuma que em situações embaraçosas prescinde de comentários censórios. Disseste-me «vamos, contas-me tudo depois de um banho quente». Tinhas sempre uma forma muito prática de me fazer dissipar os estados de embaraço. Disseste-me que me vestisse de Sheherazade, e eu morria de vontade de te mostrar as compras que fizera na tua ausência, e que pedirias que nos servissem o jantar no quarto. Estava ansiosa por exibir as tatuagens de henna e por te servir o chá verde com mentha viridis, cumprindo a tradição do deserto que orgulhosamente aprendera e que recitava de cor: «na sala onde o chá será servido, queima-se incenso. Os convidados sentam-se em almofadas e oferece-se uma vasilha com água perfumada com essência de laranja e pétalas de rosas para que as pessoas lavem as mãos. Colocam-se num bule as folhas de chá verde, hortelã e açúcar. Os ingredientes são colocados nessa ordem e a seguir cobertos de água a ferver. O chá permanece em repouso até que o aroma da hortelã domine o ambiente e então é servido em finos copos de cristal decorados com folhas frescas de hortelã. O chá bem preparado deve ter uma coloração dourada clara e o sabor da hortelã não pode sobrepor totalmente o sabor do chá verde. Para produzir uma camada de espuma, ergue-se o bule a uma certa altura e deita-se o chá nos copos. A tradição diz que quanto mais espuma, mais os visitantes são bem-vindos».
No momento em que a madrugada desponta vermelha ao som do Alcorão, estou toda contida no teu olhar. Torno a falar-te da simbologia do véu e de como o ocidente impõe o valor da laicidade e hostiliza um adorno de uma sensualidade ancestral, mas tu já não tens no olhar a complacência de quem pretende ouvir. Desvias-me o véu transparente do rosto e selas-me o discurso com um beijo. Ali mesmo ao lado, na mesquita, o apelo aos fiéis parece consentir no frémito dos nossos corpos e aquele som monocórdico perde-se no espaço da madrugada longínqua. As palavras perdem o conceito e eu perco-me com elas no timbre do teu olhar. Palavra nenhuma pode dizer o sublime de quando acordo do torpor de ser gota, fundida em ti.
Os meus dedos cessam a carícia, os fios de cabelo iluminados pelo sol convidam a que a ponta do meu nariz insolente percorra o teu pescoço, para te dizer baixinho ao ouvido «…tenho na boca o sabor a menta do chá do teu beijo, no deserto».
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