Wednesday, September 24, 2008

Projecto «Uma fotografia no Deserto»

Uma fotografia no deserto

O dia amanhece e um insistente raio de sol bate-te nos olhos, faz-te pronunciar um longo e espreguiçado hummmm, enquanto te viras e escondes o rosto debaixo do braço e te enroscas nos lençóis em desalinho. Eu olho-te, afago-te o cabelo e toda a verdade do mundo fica contida nesse instante. No momento em que os meus dedos acariciam os fios do teu cabelo iluminado pelo sol, em que o meu olhar sorri a cada poro da tua pele, a cada odor do teu corpo.
Tínhamos acabado de chegar de Marraquesh e no chão amontoavam-se os despojos da viagem: os mapas mal dobrados nos sacos de viagem caqui, a máquina fotográfica pousada na mesinha de cabeceira, a Nomad ainda suja de areia, e o motivo da viagem: uma fotografia no deserto, uma linha, areia e azul refulgente, uma escalada no Kilimanjaro.
A ideia do deserto era já antiga mas impunha-se a cada longa conversa de chá verde aromatizado com hortelã no n.º 457 da Miguel Bombarda, «o mais mítico local para um chá no Porto», dizia eu. «Imagina a cor, a temperatura, o despojamento. Imagina o corpo reduzido à sua condição primária, exposto ao mais absoluto despojamento material e paisagístico. O silêncio violento das cores: a altivez do céu azul e o dourado da areia, o vermelho do pôr-do-sol. Quando penso no deserto penso sempre em cor. E depois penso no despojamento. E na palavra que sempre me fez zangar na infância: o vazio. Lembras-te de eu te contar que costumava achar que a palavra vazio não era uma boa palavra porque era impossível de conceptualizar? Eu tentava imaginar o nada e não conseguia, e passava horas a tentar imaginar o nada». E tu abanavas a cabeça em concordância e olhavas-me com um misto de ternura e divertimento enquanto eu prolongava a tessitura das minhas memórias.
Remexes-te novamente na cama e protestas com o sol, mas deixo de imediato de estar naquele quarto branco de decoração minimalista, na casa pensada ao estilo Alvar Aalto para lá dos montes onde regressamos sempre que nas nossas vidas é outono, e deixo-me invadir pelo ritmo frenético de Djemaa El Fna. Como sempre deixo-me fascinar pela arquitectura, pelos rostos das pessoas. Procuro adivinhar as suas histórias, os episódios das suas vidas. Demoro-me a fotografar uma pequena rapariga. Aparenta ter doze anos, mas pode ter nove, dez. É uma pequena mulher na forma como carrega o alambique e olha à sua volta com a maturidade de quem contribui para a economia da casa com o bem mais precioso. Muito em breve estará prometida em casamento e, de acordo com os ditames sagrados, esposa subserviente e resguardada pelo véu que a deixa vislumbrar o mundo, mas não deixa que a adivinhem nem a ela, nem ao seu corpo. Diz às crentes que baixem os olhos e observem a continência, que não mostrem os seus ornamentos/ que cubram o peito com seus véus/ para que não chamem à atenção sobre seus ornamentos ocultos/ E isso será mais puro para os vossos corações e para os delas. Longe, muito longe do mundo ocidental que vê no véu o aprisionamento da mulher, eu encontrava nestes versículos algo de poético que revelava mais sobre a liberdade da mulher no erotismo do seu corpo pelo resguardo da sua sensualidade. A fotografia resulta em tons sépia, de onde mal sobressaem o acobreado do recipiente, o rosa e o amarelo, aqui e ali na saia e no lenço da cabeça, e de onde se destacam as singelas roupas negras num fundo de areia. Vou caminhando ao sabor da fotografia, e, como o velho Wang-Fô, interessa-me mais a imagem das coisas do que as próprias coisas, e todos os objectos e seres me retêm em inúmeras fotografias: encantadores de serpentes em sibilino assobio, homens sentados em tapetes a recitar monocórdicos versículos do Alcorão, dentistas a exibirem os dentes extraídos de incautas bocas como prova da sua mestria. Recordo o momento em que me perdi nas ruelas da Medina conduzida pelos aromas das especiarias e pelas cores. Os tecidos de seda esvoaçavam em mil tonalidades inebriantes e com eles a minha imaginação que se deixava enlevar na imagem de Sheherazade, diáfana e sensual, a contar as mil histórias das mil e uma noites. Percorria em perfeita insensatez as ruas labirínticas, e fotografei a kasbah e os sougs enquanto a luz o permitiu, sem ter a mais pequena ideia de como regressar ao hotel, onde era suposto eu estar ao fim da tarde para te receber no regresso da escalada. Ter ignorado a recomendação de que nunca saísse sem um guia fazia-me sentir agora mergulhada num desconfortável fluxo de comerciantes histéricos à procura de fregueses, de gente apressada a conduzir burros fétidos com o lombo carregado de mercadorias, num tempo indefinido que parecia ter perdido todo o encanto de há momentos atrás. Com a desorientação e a vulnerabilidade estampadas no rosto percorri vezes sem conta as mesmas ruas, os mesmos lugares, e aqueles dois homens de aspecto sórdido, certamente fregueses dos dentistas da Medina, pareciam desdobrar-se em mil e aparecer-me a cada esquina. Entre os dentes em falta, havia um deles a quem faltava um dedo também. Ao sentir as suas vocalizações guturais cada vez mais perto, estuguei o passo e a máxima da justiça islâmica «olho por olho, dente por dente» fazia-me segurar a Canon com todas as forças. A noite cobria as ruas com o seu manto de escuridão e mal pude vislumbrar o comerciante que puxava um carro de madeira apinhado de mercadorias com quem embati violentamente. Sei que caí e que uma dor aguda na cabeça me fez cambalear momentaneamente, que um fio de sangue me rolou pela testa, e só tive tempo de ver se a máquina fotográfica permanecia intacta e continuei em precipitada fuga por ruelas escuras agora desertas. Já sem fôlego e coberta de pó, deixei-me cair na entrada de uma casa desabitada. Nos recantos escuros das paredes vazias pareciam projectar-se sombras fantasmagóricas. Agonizei, sentada no chão, abraçada aos joelhos, como uma pobre menina que tem regressar a casa sozinha e não sabe como. Passou toda uma eternidade até que ouvisse familiares vozes em francês e o «estou aqui» tolhido na garganta pela emoção na noite escura se fizesse ouvir. Valorizei como nunca essa tua fleuma que em situações embaraçosas prescinde de comentários censórios. Disseste-me «vamos, contas-me tudo depois de um banho quente». Tinhas sempre uma forma muito prática de me fazer dissipar os estados de embaraço. Disseste-me que me vestisse de Sheherazade, e eu morria de vontade de te mostrar as compras que fizera na tua ausência, e que pedirias que nos servissem o jantar no quarto. Estava ansiosa por exibir as tatuagens de henna e por te servir o chá verde com mentha viridis, cumprindo a tradição do deserto que orgulhosamente aprendera e que recitava de cor: «na sala onde o chá será servido, queima-se incenso. Os convidados sentam-se em almofadas e oferece-se uma vasilha com água perfumada com essência de laranja e pétalas de rosas para que as pessoas lavem as mãos. Colocam-se num bule as folhas de chá verde, hortelã e açúcar. Os ingredientes são colocados nessa ordem e a seguir cobertos de água a ferver. O chá permanece em repouso até que o aroma da hortelã domine o ambiente e então é servido em finos copos de cristal decorados com folhas frescas de hortelã. O chá bem preparado deve ter uma coloração dourada clara e o sabor da hortelã não pode sobrepor totalmente o sabor do chá verde. Para produzir uma camada de espuma, ergue-se o bule a uma certa altura e deita-se o chá nos copos. A tradição diz que quanto mais espuma, mais os visitantes são bem-vindos».

No momento em que a madrugada desponta vermelha ao som do Alcorão, estou toda contida no teu olhar. Torno a falar-te da simbologia do véu e de como o ocidente impõe o valor da laicidade e hostiliza um adorno de uma sensualidade ancestral, mas tu já não tens no olhar a complacência de quem pretende ouvir. Desvias-me o véu transparente do rosto e selas-me o discurso com um beijo. Ali mesmo ao lado, na mesquita, o apelo aos fiéis parece consentir no frémito dos nossos corpos e aquele som monocórdico perde-se no espaço da madrugada longínqua. As palavras perdem o conceito e eu perco-me com elas no timbre do teu olhar. Palavra nenhuma pode dizer o sublime de quando acordo do torpor de ser gota, fundida em ti.
Os meus dedos cessam a carícia, os fios de cabelo iluminados pelo sol convidam a que a ponta do meu nariz insolente percorra o teu pescoço, para te dizer baixinho ao ouvido «…tenho na boca o sabor a menta do chá do teu beijo, no deserto».

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Wednesday, January 31, 2007

penso para escrever
e esta é a minha forma de existir

Friday, December 30, 2005

A Rapariga de Olhos Fixos

A Rapariga de Olhos Fixos


Conheci uma miúda

que se punha a olhar fixamente

para tudo o que via à frente;

era-lhe indiferente.


Olhava para o chão,


Olhava para o alto,


Olhava para ti

se te apanhasse incauto.


Mas depois de ter ganho o concurso local de olhar fixamente,


Levou os olhos a banhos

Para descansarem finalmente.




Tim Burton, A Morte Melancólica do rapaz Ostra & Outras Estórias, Errata Editores

Sunday, October 30, 2005

porque...



...é a minha personagem preferida de A Morte Melancólica do Rapaz Ostra & Outras Estórias e foi ela que inspirou a história da Ilda.





A Rapariga de Olhos Fixos

Saturday, October 15, 2005

Lisboa à noite




Ilda era uma rapariga banal.
Daquelas que não fazem desviar um olhar
Nem suscitar
O mais pejorativo comentário masculino.




Ilda era do norte e tinha pêlo na venta.
De faces rosadas, dentadura saliente
De anca arqueada, numa atitude impertinente.



Fez a escola de seguida
Sem os contratempos de rapariga,
(a não ser os habituais achaques menstruais)
Sem namorados, nem charros semanais.




Tinha apenas o terrível defeito
Que a impedia de estar calada
Sempre que a coisa começava a ficar complicada.

Mas complicada porquê?
Porque a Ilda, era a Ilda
E em vez de calar, irritar era o mais vulgar.


Certo dia, depois de uma discussão familiar,
Arrumou as coisas e zarpou.
Rumo à capital – pensou.

Ilda não tinha dinheiro, nem paradeiro,
E a sua vida era agora um autêntico pardieiro.




A boleia que aceitara
De um camionista simpático
Pagara-a bem cara.


Na cara, uma boca nada míngua,
A exalar mau hálito
Dizia-lhe sem papas na língua
– Dá-me todo o teu amor, minha linda.




Ilda salta do camião arrasada e desolada
Acabara de vender o corpo ao diabo
Sem conhecer os termos do contrato.


Apertou os lábios subtis
Escondendo o constrangimento
E com o orgulho na ponta do nariz
Avançou intrépida pela cidade dentro.


Lisboa à noite
não oculta os seus encantos...



Ilda vê na escuridão da esquina
Um tipo aconchegado em papel
Que mastigava o seu farnel
Vestindo uma imunda gabardina.



Mais à frente vê duas senhoras,
Jeitosas – pensa,
A trabalhar tão a desoras?




Mas parecem zangadas
E entre as palavras trocadas
Ilda vê uma de pedra na mão
Que berra com um terrível vozeirão:
– Olha que eu por fora sou mulher, mas por dentro sou muito homem!


As pedras da calçada
Reflectem o brilho dos candeeiros
E parecia a Ilda, ver nos passeios,
A lua toda derramada.



Andou sem destino,
Sem eira nem beira.
Sem saber como ou porquê
Foi parar ao Cacau da Ribeira.




Ilda era uma rapariga educada
Daquelas que dizem sempre boa noite
E fez toda a freguesia ficar espantada
Quando ali entrou e as boas horas pronunciou.




A azáfama do mercado invertia
A ordem do tempo, e só de olhar,
Pessoa alguma diria
Que o dia servia p’ra trabalhar.



– Lá estão outras duas iguais às da avenida, pensou.
As prostitutas olharam-na, pressentindo a desconfiança mútua.


Ó Justina, serve lá um cacau à rapariga,
Antes que lhe dê o fanico! – disse uma delas
À senhora que atrás do balcão, arranjava moelas,
Resguardada por uma bata florida.




– Ai é? E quem paga? deves estar cheia dele! –
e a contragosto puxou de um copo verde,
– A mim não me pagas tu o que deves, miserável!,
E encheu-o de um chocolate espesso, de aroma irrecusável.


– Então a menina é de onde? – perguntou com ironia
A outra prostituta à nossa heroína,
Pondo a mão na anca
E tornando os seios ainda mais cheios
No apertado vestido azul ganga.


Ilda recuou receosa,
Mas já uma mão lhe desviava
Uma madeixa de cabelo teimosa
Que o singelo rosto lhe ocultava.

– Eu sou de ...
E de repente sente que precisa de saber.
É mais forte do que ela o movimento que lhe impele a mão
Num violento apalpão.



– Vejamos agora se és homem ou mulher,
Surpresas destas já não quero eu ter.

Ilda prevenida
Vale por duas, ainda que, mesmo ao quadrado,
Continuasse surpreendida.

A prostituta soltou uma exclamação:
– Olha-me esta! – disse massajando o local da agressão



Se ainda o cá tinha, bem que me caía, com a força com que lhe pegaste...
Ó filha, uma mulher tem se livrar dos empecilhos com que nasce.

– Estas são o meu orgulho e a razão da minha vida
Já viste obra de maior valia? –
Prosseguiu esboçando um sorriso
E evidenciando o decote preciso.



Ilda abanou a cabeça em concordância.
E pensou: Lx à noite só com redobrada vigilância...



Saiu, agradecendo o chocolate quente.
– Será que é assim estranha toda esta gente?


E continuou a cidade a palmilhar
Sem saber que rumo à sua vida dar.
Vai andando, observando o porto e o cais
Descobrindo aqui um local distinto dos demais.




Vê os navios estrangeiros e os enormes letreiros
Vê os contentores a carregar, e os porões a transbordar.

– Talvez aqui sim, encontre um lugar para mim.
Respira fundo confiante e, sem hesitar,
Vai à autoridade portuária falar.


– Meu caro senhor, muito bom dia para si,
Venho de longe e, até aqui, muito padeci.
Ao ver este navio foi meu desejo ficar
E o convés frio, com a esfregona limpar.

O encarregado reflectiu e com ar sério consentiu.
E assim termina a história de Ilda, uma rapariga vulgar.



Lisboa à noite, não oculta os seus encantos...






Texto: Alexandra Dias
Desenho: Álvaro Anjos

Monday, October 10, 2005

Uma rua estreita







I -É-me cada vez mais difícil subir esta escada.
arrepios fóbicos percorrem-me o corpo
e a estreiteza das paredes converte-se no aperto do meu peito.

Levo a mão à testa no intuito de secar as gotas de suor, sinto a boca seca e a língua esponjosa e amarga como um naco de cortiça.

Subo-a, depois de um dia de trabalho interminável, sem possuir o sabor da vitória deste meu árduo esforço de equilíbrio, a última tarefa é a mais custosa – fazer entrar a chave na ranhura...


II
Da janela do meu quarto, vejo uma rapariga, noite após noite. Ela está sentada numa secretária e a sua cabeça toca o triângulo de luz de um candeeiro de apoio, numa sala escura. Vou buscar a máquina e fotografo-a, sem querer saber do amontoado na corda de secagem. A mesma imagem repetida ao infinito.


A folha de papel é de uma brancura incólume.

Ela observa a sua textura de uma rugosidade quase imperceptível. Passa-lhe a mão como se fosse uma carícia e encosta-lhe o rosto como se procurasse fundir-se na sua perfeição. Ensaia o braço num rabisco que não faz. Depois repensa as imagens, as palavras. E eu, sinto o meu coração acelerar. entumecido. de tanto querer dar.
Entre o dar e o possuir, avanço com os passos cautelosos de quem não quer ferir. a folha. Mas nada cala a palavra e a caneta que lhe rasga a virgindade não é pecado original é a consumação. o prazer elevado à condição de uma folha branca.
Retiro o rolo da máquina, entretanto a minha mulher chama-me para jantar.

III
Há uma mulher por trás de estreitas linhas. Vejo-a reflectida num espelho de parede a observar longamente o seu corpo. Há uma espécie de resignação nostálgica no modo como o seu olhar se evade além do espelho.



Experimento escrever uma frase, mas a minha mão recua como se não pudesse dar ao papel a forma perfeita de dizer a imagem daquela mulher a acariciar um útero cujo tempo marca agora em rugas. indelével. outrora perfeito em si mesmo, invertendo a fórmula 1+1=1 porque 1+1=3.




Queria dizer em linhas estreitas o corpo no seu fim. A negar nos sulcos profundos da pele a multiplicação a partir da unidade, porque o corpo é eternamente só. um. mas o meu rosto toca a folha de papel e sinto o calor da lâmpada queimar. Levanto a cabeça e desvio o candeeiro.



IV
Este espelho foi-me oferecido pelo meu marido,
presente do nosso primeiro aniversário de casamento.
Continuo a manter o velho hábito de tirar a roupa à sua frente como se o meu almirante me observasse deitado na cama.
Deixo-me ficar e leio nas imagens que ornamentam a sua moldura histórias sem fim.
O espelho lê nas rugas do meu corpo, uma história à espera do fim.




No canto do espelho vejo reflectido um jovem violinista.
Nele repouso o olhar resignado num toque que suponho triste.
Chamo-lhe o-rapaz-do-violino-pungente.


Poderia ser o filho que nunca tive e acaricio o ventre,
em instintivo gesto,
como se o pudesse ter em mim.



VI
A janela é a de uma casa antiga.
É grande, de madeira e as portadas abertas
deixam entrar a luz da rua.
Levanto-me e é a camisa branca do amante que deixo atrás de mim
numa cama em desalinho que me cobre o pudor de assomar à janela.
Toco as árvores com olhar de quem vê os ramos
estendidos para mim
desejosos de um abraço demorado.
Depois detenho-me na memória dessa noite.
No momento em que o acordeão de Astor Piazzola me faz apurar todos os sentidos do corpo.
No momento em que os corpos tangentes, entregues à música, fremem.
Compreendo então o significado da palavra tango.




VII
Um homem está sentado ao balcão de um bar.
Tem nas mãos um copo de whisky,
o primeiro do dia,
o necessário para poder pegar numa caneta
e rectificar os processos que todos os dias se empilham
na sua secretária,
sem que o tremor das mãos o denuncie.
Na televisão a menina da meteorologia deseja
a todos os espectadores um bom início de dia...





Ele pousa o olhar sobre o copo e
faz girar os dois cubos de gelo com
que sempre o bebe, ouvindo o tilintar
das pedras no vidro baço. O gelo derrete
lentamente, desenhando, no fluído dourado
da bebida, pequenos círculos ondulantes. Depois
respira fundo e deixa-se projectar na espiral de fumo
de um cigarro trémulo que sustenta entre os dedos amarelecidos
e que parece dizer-lhe: assisto à tua queda, toda feita de partículas de cinza.






... e não se esqueçam, tragam os chapéus-de-chuva,
hoje o tempo vai mudar.





Sunday, October 09, 2005

O Diário da Morte do Palhaço K.

Resumo da dissertação de mestrado apresentada à Faculdade de Letras da Universidade de Letras do Porto
Março de 2204
O Diário da Morte do Palhaço K. – Transposição Intersemiótica de Raul Bran­dão a Filipe Abranches consiste no confronto das obras A Morte do Palhaço e o Mistério da Árvore, de Raul Brandão, romance literário, e O Diário de K., banda desenhada, de Filipe Abranches. As duas obras, pertencentes a sistemas semióticos distintos, constituem um exemplo de transposição, ou tradução, intersemiótica. A Morte do Palhaço e o Mistério da Árvore representa um conjunto significante – a reunião de um conteúdo a uma forma de expressão –, e neste sentido configura-se como um signo inserido num processo de semiose, cuja base pragmática permite converter ou transpor a substância do conteúdo para outra matéria de expressão, seja ela um sistema linguístico ou um sistema artístico. Este processo de transposição intersemiótica corresponde a uma prática de transposição formal, sendo neste regime que se estabelece a relação de hipertextualidade entre as duas obras. O Diário de K. recebe a designação de hipertexto, porquanto constitui o resultado de um processo de derivação do hipotexto – A Morte do Palhaço e o Mistério da Árvore. Sendo o hipertexto caracterizado pela sua configuração icónico-verbal, modalidade assumida pela banda desenhada, foram estudados os aspectos vi­suais que revestem o hipotexto, e que estão na base do processo de trans­posição. A ban­da desenhada representa um desafio à literatura, dialoga com ela, oferecendo um novo terreno de reflexão sobre os procedimentos de tradução inter­semiótica.
Alexandra Dias